Convergência de Saberes

Tomei a iniciativa de criar este espaço após ter sido compelido a assitir o filme "Quem Somos Nós" (What the Bleep ( #$*! ) do we (K)now? – EUA, 2004). Várias pessoas descrevem este filme como "polêmico", "impressionante", "intrigante", "pretensioso", "auto-ajuda", "fascinante". Rubens Ewald Filho, no UOL cinema, nos diz que este filme ficou mais de 1 ano em cartaz numa sala de Los Angeles e depois repetiu o feito aqui no Brasil, em São Paulo, dependendo do "boca-a-boca" para sua divulgação. O que eu achei do filme talvez não interesse a muitos, provavelmente não é uma opinião muito técnica, com certeza não influenciará ninguém. Mesmo assim vou dizer: o filme é interessante, porém superficial e equivocado em algumas passagens. Tem o mérito de transformar temas muito difíceis de entender em assuntos aparentemente banais, mesmo que "fantásticos". Afinal, para quem assiste "Jornada nas Estrelas", "Arquivos X", "Além da Imaginação", os milagres quânticos não são tão surpreendentes assim. Também as mais recentes descobertas da neuropsicologia são "demonstradas", embora de forma muito mais caricatural do que eu gostaria. O fato de misturar-se a isso muito misticismo e religiosidade new age, a la Ponto de Mutação (livro de Fritjof Capra que iniciou a era da "mistura" entre ciência moderna e religião oriental), chegando mesmo a gravar depoimentos de um "espírito" de 35000 anos de idade (o tal Rhamta), não é nenhum pecado, dadas as circunstâncias e os precedentes famosos. O principal pecado do filme é a banalização de temas que são REALMENTE complexos, e tornam-se simples apenas como artifício didático, o que cobra o preço da imprecisão e abre brechas para todo tipo de interpretações errôneas. Os físicos, tenho certeza, torcem muito o nariz para as descrições atuais da mecânica quântica. Para dizer de forma simples: quando os físicos descobrem equações como as da Teoria da Gravidade Quântica, por exemplo, eles não trabalham com conceitos como "acesso epistêmico", ou com a natureza filosófica do observador. Eles apenas fazem cálculos e escrevem termo puramente matemáticos. Acontece que estes elementos matemáticos podem descrever fenômenos estranhos que ocorrem exclusivamente em escalas de espaço e tempo pequeniníssimas ou grandíssimas. Mas esta matemática NÃO PODE ser facilmente transferida para palavras, especialmente para conceitos que nós, leigos em física, possamos entender. Dessa forma, não se pode de forma tão direta dizer coisas como "nós criamos o mundo", "existe uma força desconhecida que preenche nós e o universo", "o que realmente quisermos que seja será", etc. Nem me atrevo a dizer realmente se tais afirmações são verdadeiras ou não. O que estou dizendo é que se uma equação vetorial que descreve o modo como um campo quantizado interage com outro (ou coisa que o valha) dá margem a interpretações, como podemos ter certeza que estamos interpretando isso corretamente? Como podemos ter certeza de que, ao invés de estarmos "entrando na toca do coelho" como dizem no filme, não estamos colocando a cabeça num buraco de avestruz? Ou seja, como sabemos que estamos dando a interpretação correta ao problema? Em relação à neurobiologia, assunto que domino, a exposição do filme traz à tona temas que realmente são fascinantes, mas que estão reduzidos a caricaturas quase sem significado. Acreditem, as mais modernas informações sobre emoções, consciência, mente e cérebro, são muito mais fascinantes do que o filme mostra. Eles poderiam ter tido uma consultoria melhor neste ponto. De uma forma geral, o filme é muito bom por tocar na ferida, ou seja, despertar uma discussão. Ele perde bastante na profundidade com que aborda os temas, e realmente torna-se pretensioso ao tirar conclusões "bombásticas". No entanto, o que é perfeito, não é?
E o que é a Convergência? Ora, é a discussão que acredito que este filme desperta: para onde convergem os conhecimentos e saberes modernos de uma ampla variedade de campos do conhecimento e tendências? Eles estão convergindo mesmo entre si, como se dá a entender neste filme, como eu acredito e como outras pessoas crêem? Sim, ou não? Depende de você…
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