Diário de um Recém-ateu

04 de Março

Você tem sempre que estar pronto para morrer não apenas hoje, mas agora! Essa é a única liberdade que nos é possível.

Existe o destino? Essa é uma discussão bem interessante. Até recentemente (digamos, uns 100 anos atrás), as leis da física, se aplicadas “ao pé da letra”, podiam dar a entender que o destino de qualquer sistema neste universo é pré-fixado pelas condições iniciais. Tipo aquele lance da bola e do plano inclinado: sabendo-se todas as variáveis, pode-se calcular EXATAMENTE onde a bola estará no futuro. Se o sistema tiver duas esferas, ao sabermos todas as variáveis iniciais e leis do sistema, prevemos com absoluta certeza (tão absoluta quão exatos são os valores que temos) onde cada esfera estará em cada momento do futuro, se se encontrarão, etc.

Teoricamente, esta progressão poderia ser repetida, num crescendo linear de complexidade, sem alterar-se a exatidão das previsões, desde que aumentasse também a quantidade e precisão dos dados iniciais e o poder de calcular a matemática oriunda das leis que descrevem qualquer sistema. Mesmo num organismo com centenas de bilhões de células, dadas as condições iniciais com exatidão e detalhes suficientes e leis exaustivamente completas, poderíamos calcular onde CADA ÁTOMO E MOLÉCULA ESTARIAM EM QUALQUER MOMENTO, ou seja, tudo o que ocorresse com um organismo. Uma vez que o cérebro é material, também cada pequena ação e decisão poderiam ser previstos. Como o computador perfeito de Laplace, que de tudo sabia, no presente, passado e futuro.

Ou seja, tudo poderia ser previsto, tudo é determinado, tudo ESTÁ ESCRITO, Maktub!
Bem, as leis da física já não são as mesmas, e o Princípio da Incerteza de Heisenberg e o Efeito Borboleta de Lorenz sabotaram o ideal Laplaciano de um universo determinista.

Mas qual o impacto prático destes novos princípios na questão do destino? Na verdade, ninguém sabe! Arriscar qualquer resposta seria um misto de literatura com espiritualidade barata. Talvez, mais que isso, nossa própria imperfeição sabote o destino…

02 de Março foi a festa do aniversário da minha filha.
Mais um gosto de eternidade.
O melhor foi ver a alegria dela(s).
As crianças acharam o máximo. Os adultos, como sempre, acham que isso faz parte. Adultos não necessariamente se divertem em festas infantis. Eu me diverti.

Ver o brilho nos olhos da minha filha e seu encantamento quando cantaram  os parabéns foi o suficiente. Enquanto escrevo estas linhas, dois dias após, lembro que aqueles momentos perduram para mim apenas na memória, e a memória humana não é uma “fotografia” ou uma “filmagem”, não tenho detalhes precisos “impressos” em meu cérebro, mas sim uma sofisticada “recriação” virtual a partir das modificações que centenas de milhões de neurônios sofreram naquele dia, induzidas pelas experiências que vivenciei. Resumindo: o cérebro nunca se lembra realmente de nada, ele reconstrói momentos “anteriores” no presente. Essa reconstrução nem sempre é perfeita e pode mudar com o tempo. Por isso não adianta viver de lembranças… isso é ilusão. Carpe diem! Curta a vida, HOJE!

“I’ve seen things you people wouldn’t believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the dark near the Tanhauser gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Time to die.”

– Roy Batty, personagem de Hutger Hower em Blade Runner (1982), no diálogo final

Como lágrimas na chuva…, uma bela metáfora para nós e nossas memórias. Nunca a esqueci.

Hoje, o documentário do James Cameron e do Simcha Jacobovici saiu no Discovery Channel: “The Lost Tomb of Jesus”. Polêmica à parte, uma entrevista para o TODAY, da NBC na internet, foi bem interessante. Ele argumentou que sua polêmica afirmação de ter achado os ossos de Cristo não necessariamente abala o dogma da ressurreição, apenas lança outra discussão: Jesus ressuscitou “espiritualmente” ou “corporalmente”? Que pérola! Está claro que eles estão apenas se divertindo às custas dos católicos! Os judeus parecem ter gostado da novidade…

Cameron diz, na entrevista: “The resurrection itself is not challenged. […] Where you get stuck  is the physical ascension to heaven, taking his bones and body with him to heaven, instead of leaving them behind on earth.”

Eles estão realmente curtindo com a cara da igreja católica. Mas a idéia não deixa de ter um significado para reflexão: teria algum sentido um deus que “morresse” (embora, segundo a bíblia, tenha morrido mesmo) e, ao invés de ressuscitar corporalmente, apenas reaparece em espírito e deixa um corpo para apodrecer e restar ossos para a posteridade? Ossos divinos terão alguma propriedade especial? E a alternativa, um deus que se fez carne (ainda segundo o dogma), morreu de fato e ressuscitou essa carne e, com corpo e tudo, foi para o paraíso. O que houve com o corpo, a carne? Como sabemos, carne viva tem o péssimo hábito de envelhecer e depois morrer. Ele então ficou imortal e continua vivo até hoje em algum lugar (no mundo espiritual?). No outro mundo pode existir uma pessoa de carne e osso? Se ele ainda está vivo, pode morrer de novo? O processo que evitou que ele envelhecesse nos últimos 2000 anos pode ser aplicado em nós?

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