Diário de um Recém-ateu

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8 de Março de 2007

O que somos?

Afinal, somos capazes de sermos mais libidinosos e violentos que nossos antepassados e primos símios propriamente ditos, nunca conseguindo contemplar a natureza  divina que criamos e tentamos incutir nas coisas, apenas a nós mesmos, refletidos no espelho das coisas todas, sem nem mesmo conseguirmos nos guiar pela nossa suposta racionalidade.

O que nos diferencia, então, realmente?
O que nos torna únicos, se é que há?

O SONHO!
(Algum animal sonha?)

Na verdade, animais (mamíferos) também têm sono REM como os humanos, mas quanto ao conteúdo, nada se sabe. Acredito que, provavelmente, os animais também sonhem, sonhos diferentes dos nossos, assim como são diferentes (mais simples) os sonhos das crianças pequenas. Afinal, a filogenia mostra que nenhuma capacidade surge “pronta”. Ela vai evoluindo e “aperfeiçoando-se” com o tempo.
No entanto, quando falo do sonho, ou do sonhar, não me refiro à capacidade biológica de criar ou construir conteúdo mental “virtual” durante o sono; claro está que uma tal capacidade, baseada em redes neurais existentes em nossos cérebros, não “apareceu” no ser humano, sendo fruto da evolução. Dessa forma, mesmo que o ser humano possa ser capaz de atividade onírica radicalmente diferente daquela de outros animais, devem existir “precursores” de atividade onírica, um conteúdo “oniróide” mesmo em mamíferos primitivos e, quem sabe, até mesmo em animais anteriormente colocados na escala evolutiva. Ou seja, sonhar é biológico, e tudo que é biológico não é exclusividade absoluta nossa, mas fruto de uma longa evolução, até mesmo as nossas mentes.
Eu falo é do SONHO, da capacidade de SONHAR com aquilo que desejamos, queremos, o ser humano sonha com seu destino. Isso, creio, não tem paralelo entre outros animais. Essa capacidade nos diferencia mais do que nossa suposta “racionalidade”, a qual é apenas aparente.
Pensemos, quanto de qualquer decisão banal que tomamos é realmente “racional”! Talvez, as pessoas mais habilitadas a responder a este questionamento hoje sejam não psicólogos, biólogos, físicos, matemáticos, ou mesmo místicos, mas os publicitários!
Como médico, tenho muitas vezes que tomar decisões que afetam o “destino” dos pacientes. Mas, com essa palavra, o que quero dizer? Por mais criticada que seja, a medicina baseada em evidências ajuda a responder essa questão. Ora, todas as vezes que tomamos decisões clínicas sobre um paciente estamos, mesmo que inconscientemente, escolhendo um ou mais “desfechos” do tratamento proposto e montando, mais uma vez a maior parte inconsciente, um “modelo” de como chegar a este(s) desfecho(s). Além disso, reunimos “evidências” (na maior parte inconscientes) que corroborem o “modelo” montado e que aumentem a “chance” de chegarmos ao(s) “desfecho(s)”. Coloquei tudo entre aspas porque tais conceitos são científicos, retirados do método de trabalho da medicina baseada em evidências. Mas creio que tais conceitos, dentro de certos limites, são úteis para entendermos nosso processo de tomada de decisões. Os seres humanos claramente não são racionais (no sentido de científicos) ao tomarem decisões. O cérebro humano usa suas redes neurais para escolher entre várias opções disponíveis ou para adaptar criativamente o que tem à mão a partir de um método heurístico. Entre outras coisas, nosso cérebro reconhece e registra padrões de eventos com repetição freqüente e compara estes padrões com outros padrões, categorizando coisas e padrões e criando hierarquias de eventos e semelhanças ou diferenças. Um exemplo é a forma como crianças pequenas diferenciam coisas “vivas” de coisas “não vivas”. O primeiro critério, aparentemente, é o movimento espontâneo, depois, com o tempo, seguem-se outras características (como ter “pele” ou “pêlos”, ou “respirar”) que vão sendo agregadas ao padrão armazenado do que é “vivo” e permitem à criança reconhecer e diferenciar entre o que é vivo e o que não é cada vez com maior exatidão. Por isso é tão fácil iludir o ser humano , se você puser diante dele um conjunto de informações que os “padrões” armazenados não consigam definir adequadamente. Detalhe: este processo está bem longe de ser “consciente”. Depende de redes neurais estabelecidas desde a infância.
Esses mecanismo de comparação de semelhança de padrões me lembra o Princípio da Semelhança dos homeopatas: similia similibus curantur. Talvez, o gosto humano por essa e outras práticas não científicas esteja relacionado ao mecanismo neural humano de reconhecimento de padrões. Tal como a arte, elas “falam” a nós…
Voltando ao destino e à medicina baseada em evidências, obviamente quando falo em seus conceitos é apenas como analogia. Mas acredito que, quando falamos no “destino” de alguém, temos uma idéia bem objetiva (um padrão), inconscientemente, daquilo que queremos para o paciente. Ou seja, nosso conceito “real” de destino  não tem nada de filosófico, é muito prático, mesmo que não tomemos consciência. Destino é o sofrimento, a morte, no caso de pacientes. Assim como, para as crianças (e para a grande maioria dos adultos) tudo o que se move com intenção (ou aparentemente, isto é, aquilo que entendemos como intenção) está vivo. Dessa forma, inconscientemente sempre estamos escolhendo “desfechos”, montando “modelos” e colhendo “evidências”, de forma heurística, não racional. Muitas vezes, apesar de racionalmente chegarmos a uma determinada conclusão, tomamos uma decisão diferente. Esta é a base daquilo que chamamos de intuição. Também é a base do inconsciente de Freud.
Aos espiritualistas: uma vez que mais estas características da mente humana foram “roubadas” da alma para o cérebro físico, como fica nossa capacidade intuitiva na vida após a morte? A alma também tem inconsciente?

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