Diário de um Recém-ateu

26/03/2007Nós somos apenas nós mesmos, a única coisa que podemos ser, certos ou não, errados ou não, bem ou mal, apenas nós.

Sempre tive essa sensação de não fazer parte, de não pertencer aqui, de não estar conectado, de estar à parte. Só minhas filhas me fizeram sentir diferente.

Um dia morrerei e tudo que sou desaparecerá sem deixar vestígio. Um dia tudo o que fiz será esquecido, e meu rastro será tão anônimo quanto pegadas na areia. Um dia a própria humanidade desaparecerá para sempre e não terei mais descendentes sobre a Terra. Um dia a própria Terra perecerá dentro do fogo de um sol gigante e jamais o universo será lembrado que um dia existiu a humanidade.
Engraçado, todos esses fatos são mais certos que o meu destino daqui a 5 minutos.
Por que?
Forças cegas nos trouxeram até aqui, até ao ponto de contemplar-nos a nós mesmos e ao universo em seu esplendor? Um conjunto de equações sem consciência? É mais fácil acreditar nisso que em um deus? Não, não é mais fácil, na verdade, simplesmente é mais provável. Por que acreditar naquilo que queremos simplesmente por ser o que queremos? Não será mais honesto abrir os olhos e enxergar a verdade, tão cruel ela nos pareça? E, além disso, a verdade não é cruel, pois a crueldade é uma característica humana. A verdade pode ser frustante, mas não cruel. No entanto, essa frustração vem de nossas expectativas errôneas. ACHAMOS que queremos viver para sempre, mas não é isso que queremos. Quem realmente gostaria de envelhecer para sempre…? ACHAMOS, então, que queremos ser jovens para sempre, para a velhice não nos roubar a vitalidade, mas novamente não é isso que queremos. Imagine a vida eternamente jovem. Teríamos filhos, netos, bisnetos, e a partir de certo momento, não daríamos mais conta de nossos descendentes, eles perderiam o significado para nós. Então passaríamos a eternidade estéreis, a não ser que voltássemos ao início e tivéssemos filhos de novo, e nossa vida eterna seria um ciclo eterno de recomeçar do mesmo ponto e perder tudo a partir de certo ponto. Imaginem qual amor poderia resistir REALMENTE à eternidade. Nas histórias românticas, a fórmula da eternidade “e foram felizes para sempre” é seguida invariavelmente por “THE END” e então, o filme acaba. E nos filmes e novelas espíritas, o encontro das almas gêmeas, sempre no final, logo antes do “fade out”, dá-se na forma de uma desincorporação etérea em miríades de belas luzes. Ninguém que admira os “finais felizes” e alimenta esperança na vida eterna jamais imaginou a ROTINA ETERNA, tenho certeza. Quando eu era criança (a idade que somos mais inteligentes) essa idéia me fascinava e desafiava: o que se faz durante a vida ETERNA? A resposta católica de uma eterna contemplação de deus, estática, me enchia de horror. Acho que isso encheria de horror qualquer criança. Então, na verdade ACHAMOS que queremos a vida eterna, mas logicamente nunca imaginamos suas consequências mais óbvias. Apenas, chego à conclusão, apenas não queremos envelhecer nem morrer. Somos seres mortais relutantes em morrer.
E, mesmo assim, morreremos.

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