Diário de um Recém-ateu

28/03/2007

Sendo fugaz nossa existência, sendo a aniquilação do que somos e fizermos certa, sendo egoísta nossa natureza, sendo o tempo irrecuperável, vale a pena acreditar em altruísmo, em qualquer tipo de bondade e gratuidade?
Para mim, a resposta é categoricamente SIM!
Dentro de certos limites, pois nossa natureza é claramente auto-centrada, como teria de ser em qualquer animal que busca a auto-conservação, creio ser o próprio fato de estar vivo algo maravilhoso, milagroso. Não no sentido sobrenatural, do milagre que subverte a nosso bel prazer as leis naturais, mas um milagre do real! Apenas porque não existe o mágico e o sobrenatural não devemos menosprezar a beleza transcendental da realidade! O enorme cosmo coalhado de estrelas e galáxias, o mistério e deslumbramento da matéria escura e da etérea energia escura. A recém-descoberta quintessência. O surgimento sutil da vida no meio da balbúrdia da matéria inorgânica. A explosão de complexidade das formas de vida cada vez mais numerosas e diversas. O surgimento da centelha miraculosa da auto-consciência no âmago de redes neurais que evoluíram para espelhar o mundo e conhecê-lo. Porque não falamos mais dos milagres que nos cercam? Assim, penso que, em retribuição ao grandioso presente que recebemos, nossa vida, seja ele de um deus ou de uma profunda força cósmica inconsciente daquilo que cria, torna-se muito pouco mesmo se fizermos todo o bem de que formos capazes nesta vida. É quase uma obrigação, com certeza uma honra e, na verdade, um grande prazer, passar toda a vida que temos trazendo bondade e gratuidade a esta existência, a todos os seres! Trata-se de uma ínfima retribuição em troca de tudo o que recebemos pelo fato de um dia termos nascido. Afora isso, conclui-se também que, além da própria dádiva da vida, tudo o mais que vivenciarmos ou tivermos de bom e prazeroso é bônus, prêmio extra para os já premiados. Dessa forma, vale a pena sairmos de nosso natural egoísmo para vivermos assim, pela mera gratidão de viver!
Nessa perspectiva, a aniquiladora morte perde a força e torna-se pálida, pois ela mesma é incapaz de reverter e apagar a vida que vivemos antes. A morte, na verdade, é apenas mais uma parte da vida, o seu final. Como tudo o que tem começo, deve necessariamente ter fim.

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