Lembrança e esquecimento

A memória é uma coisa interessante. Estou lendo "Alucinações Musicais" do médico inglês radicado em Nova Iorque Oliver Sacks. Ele descreve um caso de um músico que perdeu a memória após um violento surto de encefalite herpética, uma grave infecção viral do cérebro. Quando recuperou-se, ele tinha uma memória de duração curtíssima, e tinha esquecido completamente de seu passado. Ele vivia num espaço de tempo de alguns segundos, cercado por todos os lados da mais completa escuridão, a escuridão da inconsciência. Ao piscar os olhos, ele esquecia do momento imediatamente anterior, de forma que, quando os abria de novo, era como se estivesse acordando naquele instante. Em seu diário, ele escrevia algo assim: "19h10 – acordei pela primeira vez; 19h15 – finalmente acordei; 19h20 – agora, definitivamente acordado; 19h25 – depois de semanas dormindo, acordei". Para sua mulher, ele dizia: "não sinto nada, não sei nada, não consigo pensar, é como estar morto". Em sua graphic novel "Sandman", Neil Gaiman criou um castigo semelhante para o mago que manteve Morfeus, o senhor dos Sonhos, aprisionado: ele vivia num eterno pesadelo, acordando constantemente dentro de outro sonho terrível.
Eventualmente, depois de uma década ou tanto, o paciente melhorou, saindo de seu estado "infernal", conseguindo assumir algum contato com a realidade, embora mantendo uma memória curtíssima ainda, apenas alguns momentos. Lembrando uma versão radical do filme "Como se fosse a primeira vez" (50 first dates – 2004), ele mostra um amor esfuziante e intenso pela esposa, que o visita sempre na instituição onde ele está internado (uma fazenda para pacientes crônicos), a cada cinco minutos, ou perto disso, abraçando-a e cumprimentando-a, elogiando-a, como se fizesse meses que não a visse. A mulher dele escreveu um livro, "Forever Today", publicado em 2005, para (nas palavras dela), entender "quem nós somos? O que isso significa para nós? O que vai acontecer conosco a partir de agora?" Numa entrevista para o "Guardian Unlimited" online,
ela dá alguns detalhes sobre seu relacionamento com seu marido, antes e depois da catástrofe que os acometeu.
O mais importante é o questionamento: somos a nossa memória? Sem memória, não somos nada? Aparentemente, as repostas a essas perguntas são "sim" e "não", respectivamente. Para o paciente em questão, temos a impressão de que a perda de memória, embora extrema, não "destruiu" o que ele é, mas isto é apenas uma aparência superficial criada pelo fato dele ter se agarrado à uma das poucas lembranças que lhe restaram: sua mulher, com quem estivera casado apenas 6 meses antes de adoecer. Seguramente, se ele tivesse perdido completamente a recordação de sua amada, se a visse como mais um dos estranhos personagens de seu pesadelo de eterno acordar, não teríamos essa impressão de "manutenção" de algo da personalidade , do ego, do self, apesar da amnésia quase completa. Sem capacidade de se comunicar com os outros, devido à falta completa de conteúdo para comunicar (ele teria apenas alguns segundos de existência para "viver" eternamente) ele seria institucionalizado até o fim dos seus dias, subvivendo num estado de terror eterno, mal se dando conta do que lhe acontecera. Decididamente, para sua grande sorte, a memória de sua mulher o salvou desse destino severo. Hoje, eles podem ser vistos, quando estão juntos, apaixonados como um casal de recém-namorados (como é descrito na entrevista do Guardian) o que bem pode ser encarado como uma verdade constante. Afinal, se ela sair de sua vista por um momento apenas (digamos, para pegar um café logo ali), ele a recebe de volta com abraços, beijos e carinhos, como se a tivesse visto apenas há muitos meses atrás e estivesse com uma enorme saudade. Eles vivem assim há mais de vinte anos…
Na entrevista do Guardian eles citam a lenda grega do mundo dos espíritos, o Hades, onde passavam dois rios: Mnemosine (lembrança) e Letes (esquecimento). Mnemosine era também tida como uma deusa, a personificação da memória, mãe das musas.

Assim como Letes era também uma ninfa, personificação do esquecimento.

Para ver uma interessante discussão sobre a memória como significando verdade (aletheia = negação de Letes), eternidade, vida e esquecimento como significando morte, perda, escuridão (Letes é filha de Eris – a discórdia – a qual é filha de Nix, a noite, mãe também de Hypnos – ou Morfeus – do sonhar e Tánatos – a morte) pode-se checar o ensaio "De mortos e monumentos" de Osmar Soares.

Nix, a deusa noite, era mãe de todas as divindades já citadas e de Algea (dor), do destino e das moiras (divindades gregas relacionadas ao destino), do dia, de Nêmesis, entre outras. Os gregos tinham uma forma poética de dizer que acreditavam naquele conceito de que nascemos do nada e para lá voltaremos.

Ou em outras palavras, acordamos da escuridão do esquecimento e, no fim, dormiremos novamente, entregues à noite eterna. Ou ainda: nosso destino são sempre as águas escuras do Letes. Que o digam os pacientes gravemente amnésicos.

Em tempo: por ser o rio do esquecimento, Letes também era tido como o rio do perdão pelos gregos.

Powered by ScribeFire.

Anúncios

About this entry