Por que?

Hoje é domingo, pé de cachimbo
O cachimbo é de ouro, dá no besouro
O besouro é valente, dá na gente
A gente é fraco, cai no buraco
O buraco é fundo…
E acabou-se o mundo

(Parlenda infantil popular, se você conhece uma versão diferente, é porque existem mais variações que grãos de areia da praia)

Não é uma maneira singela e interessante das crianças se familiarizarem com o conceito da morte?

Sei que deveria ter publicado essa postagem no domingo, mas não deu, portanto, vai hoje mesmo.

Minha filha mais velha fez-me uma pergunta daquelas que nos fazem pensar em como as crianças pequenas conseguem ser tão mais profundas e atingir as questões mais fundamentais, diferentemente de nós que achamos já saber de tudo. E pur si muove… e no entanto, nós não sabemos realmente de nada.
"Por que deus existe?" Na sua simplicidade de criança, ela ousou fazer uma pergunta tão fundamental para nós humanos quanto sem resposta.
O interessante é que não é uma pergunta fácil do tipo: porque nós existimos, quem é deus (sujeitas a respostas fáceis e batidas como ‘deus é amor’, ‘deus nos ama e nos criou para sermos felizes’, essas coisas rápidas e sem conteúdo de fato). ‘Por que deus existe’ é uma pergunta profunda. Em geral, a questão sobre a nossa existência e a existência do universo é respondida classicamente pela primitiva física das religiões com a fórmula: ‘porque deus nos criou’. Essa explicação é simples, fácil de compreender, rápida, prontamente acessível, descomplicada, com aplicação prática direta e intuitiva. O único problema é que a fundamentação empírica para essa resposta é quase nula. Vejam bem, essa questão do embasamento em evidências não foi criada pela ciência, nem nunca foi exigência exclusiva desta. Na verdade, acho que mais cientistas que leigos tentaram burlar de alguma forma a necessidade de provas diretas para sedimentar as crenças. Essa questão é muito antiga, deriva do modo como entendemos o mundo. Quando os antigos caçadores-coletores pré-históricos juntavam-se numa empreitada, digamos, uma caçada, eles dependiam de informações mais ou menos confiáveis para conseguir alimento e sobreviver. Logo, aqueles que se deixaram seduzir por crenças sem base na realidade não deixaram descendentes que chegaram até hoje. Vejo a questão da seguinte forma: quanto maior o intervalo de tempo envolvido, maior a dependência de veracidade das informações para perpetuar uma população (e, logo, seus genes). Ou seja: se isso for verdade (não vejo porque não poderia ser, por uma questão de lógica) a quantidade de pessoas existentes hoje em dia que acreditam com facilidade em crenças sem nenhuma evidência deveria ser mínima. Nós viveríamos numa sociedade de "céticos" naturais, que achariam muito estranho qualquer misticismo ou idéia que se mostrasse falsa à luz da evidência do dia-a-dia. Isso não está muito de acordo com o que acontece hoje em dia, mas pode bem ser considerado verdade em povos primitivos como os aborígines australianos e tribos africanas de regiões desérticas. Vivendo em condições inóspitas, eles somente estão vivos por exigirem alguma confiabilidade prática daquilo em que acreditam. Nem por isso deixam de ter lendas!! Então, por que acreditamos em deus sem evidência se teoricamente temos uma preferência "inata" para aceitarmos informação após algum grau de verificação prática? A resposta mais simples poderia ser: porque a idéia de existência de deus não precisa de verificação prática para que nós a aceitemos. Ou seja: não esperamos realmente encontrar provas da existência de deus (independentes dos relatos orais, das lendas), nos basta a idéia, a história, o conto. Este cumpre uma função específica e exclusiva na nossa mente, a qual não depende do fornecimento de evidência, prescinde da verificação prática. Basta-nos acreditar (ou talvez basta-nos contar). Talvez seja por isso que, embora seja verdade que nosso raciocínio precise incluir um sistema de verificação intuitivo da "verdade", nós temos tantas lendas, tantas histórias fantásticas e gostamos tanto de religião. Dessa forma, essa seria uma possível resposta à pergunta de minha filha, um ensaio de reposta, esboçado e nascente, meio tosco, mesmo assim uma resposta lógica e – porque não – algo elegante: deus existe porque gostamos (ou precisamos) dele.

Para os religiosos que discordam: se não é verdade, porque vocês não provam a existência de deus (se ele não é exclusivamente um artigo de fé sem impacto prático, ou seja, sem necessidade de ser real).

No entanto, minha filha tem 5 anos, e respondi a ela: "é um mistério". O que não está longe de ser verdade. Por mais que eu esboce uma resposta nestas linhas, se alguém me pedir provas do que acabei de escrever, direi: não as tenho, não sei ao certo. Não posso saber.

E pur si muove…

E entrou por uma porta e saiu por outra, quem quiser que conte outra.

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