O Argumento da Assinatura

Lendo um artigo de Marc Hauser, eminente biólogo evolucionário, psicólogo e estudioso da evolução da mente humana, professor de Harvard. Ele discorre sobre as características singulares da mente humana e o grande vão entre nós e mesmo os animais mais desenvolvidos, em particular a linguagem e criatividade humanas, que não tem paralelos na natureza. Um prato cheio para os defensores do argumento do desenho inteligente. À parte esta discussão básica, aproveitei para fazer um exercício mental. Posso testar logicamente os argumentos céticos, antiteístas, até o extremo e ver se tais argumentos suportam uma reductio ad absurdum. Creio que o exercício intelectual mais básico para quem quer realmente dedicar-se ao estudo da questão teísta não é o desmonte sistemático dos argumentos de seus opositores, algo que em geral não traz nada realmente novo e recai rotineiramente em falácias, sofismas e preconceitos. O exercício básico deve ser testar seus próprios argumentos, abandonando os que não se sustentam. Posso exemplificar pelo que me ocorreu hoje, o que chamo o Argumento da Assinatura. Este argumento é largamente discutido pelos dois lados, e constitui uma das linhas principais de exploração de um conhecido livro de um autor cético, Contato (Carl Sagan). Interessantemente, Sagan cria a situação hipotética na qual a assinatura é encontrada. O argumento pode ser resumido desta forma: porquê deus não assinou claramente sua obra, a fim de provar sua existência inequivocamente e fomentar a fé? Embora muito usado pelos céticos, este argumento é extremamente simplório e facilmente descartado pela lógica, eu diria que é de nível infantil, mesmo. O fato de que até nomes do porte de Sagan terem centrado neste argumento mostra a fragilidade lógica da maioria dos discursos céticos, que somente granjeiam hoje maior proeminência por motivos culturais e conjunturais (é fancy, fashion) e não por mérito. A contra-argumentação, sucintamente:
1. Muitas linhas de raciocínio podem ser criativamente desenvolvidas, mas uma das que me agrada mais é a analogia com uma obra de arte. Composições artísticas são complexas expressões dos estados mentais do artista, em geral sem assinatura ou com uma dissimulada, por motivos óbvios. O intuito do artista, embora autoral, não é criar um outdoor de si mesmo e a assinatura potencialmente perturbaria a mensagem da obra.
2. Fadada a interpretações pessoais como pode ser, esta argumentação deve ser complementada por outra: o argumento da assinatura pressupõe um conhecimento sobre a mente de deus; na hipótese de sua existência, que poderíamos dizer sobre seus motivos? Por que supor que ele deveria ou quereria deixar uma assinatura?
3. O argumento final, porém, é este: somente se poderia supor sobre a vontade de deus de deixar ou não uma assinatura se primeiro for considerada a hipótese de sua existência. O cético radical, assim, sequer poderia formular o Argumento da Assinatura.
Concluindo, este argumento enfraquece a posição cética e deve ser abandonado por qualquer um que deseje defender o ponto de vista antiteísta.
Em outras ocasiões, voltarei a fazer este exercício com outros argumentos. Marc Hauser não defende o desenho inteligente, mas relata que, por enquanto, não temos ainda como responder à questão de porque sou eu e não um chimpanzé que postou este texto!

Anúncios

About this entry