O Argumento da Lacuna

Lendo “Decoding Reality”, de Vlatko Vedral, físico conhecido por seu trabalho com a Teoria da Informação Quântica. Logo no início do livro ficamos surpresos com o aparentemente completo e profundo conhecimento que Vedral tem dos mais variados campos do conhecimento. Ao contrário de Hawking, que matou a filosofia (vide meu comentário sobre seu último livro), ele passeia por complexos conceitos de outras áreas. Seu ponto de vista é bem original, propondo um tipo de idealismo materialista, onde a informação é o material básico de construção da realidade. Ele explora semelhanças entre ciência e religião e propõe uma mudança no modo como vemos nosso mundo, que pode levar a uma mudança de paradigma. Alguma reminiscência? Para quem lia livros de divulgação científica para leigos nos anos 80, uma lembrança é imediata. Fritjof Capra: o autor de “O Tao da Física”, controversa obra que fez um paralelo entre ciência e religião e ainda influencia opiniões até hoje. Algumas diferenças importantes: Capra foi um físico medíocre, Vedral é respeitado pelos seus pares e originou conceitos hoje muito discutidos na física moderna; Capra ficou mais conhecido pela sua justificação aparente de conceitos do misticismo e por participar do movimento por idéias holísticas (não importando muito o que isso realmente significa), já Vedral visita a religião mais superficiamente, embora isso ainda chame a atenção dos leigos; Capra também enveredou pelo estudo dos sistemas complexos, onde obteve maior impacto na discussão e divulgação de seus conceitos (a maioria com importância na biologia), Vedral, na verdade, demonstra sérios equívocos quando divaga sobre genética e biologia, o que me leva a pensar se ele realmente entende algo além de sua área. Em resumo, Capra é um físico apagado que obteve mais influência na biologia de sistemas complexos, enquanto Vedral é um físico de renome cujas idéias com certeza teriam impacto na biologia, mas esbarram no conhecimento limitado que ele tem desta área. Ou por outra: Capra deve ser lido desconsiderando a física, Vedral deve ser lido considerando apenas a física da Informação Quântica, sua especialidade. Isso é uma pena e teria sido evitado se Vedral tivesse consultado especialistas em genética com interesse na teoria da informação. No geral, por enquanto Capra ainda tem vantagem, a meu ver.

Lembrei de outro argumento cético, que a leitura de Vedral também suscita, que chamo o argumento da lacuna. Em resumo, antes de importantes descobertas científicas recentes, deus parecia ser a única explicação disponível para a complexidade. Genética, física moderna e, principalmente, Darwin, parecem ter “empurrado” deus para os momentos iniciais do universo e os poucos nichos sem explicação da biologia, como a cognição e a origem da vida. Ou seja, as lacunas do conhecimento científico.
Esse “deus das lacunas” será previsivelmente excluído de todo com os futuros desenvolvimentos da ciência. Trata-se de um argumento importante e muito utilizado por céticos. Os próprios religiosos preocupam-se com este tipo de conceito, temendo um culto a este “deus das lacunas”. Apesar de aparentemente sólido, este argumento não é robusto. Seu problema mais óbvio pode ser resumido pela pergunta: “porque existe a realidade?” Ou seja, mesmo que deus não precise mais ser invocado para explicar o universo, porque existe algo, ao invés de nada, pra começo de conversa? Essa pergunta não é nova, tem séculos e faz parte da prova da existência de deus de Leibniz. Eis uma das razões porque insisto em dizer que Dawkins não entende nada de filosofia e não defende bem o ateísmo, apenas tornou-se popular. Um outro problema com o argumento da lacuna, menos óbvio, é seu caráter probabilístico: ele não prova nada, apenas mostra uma tendência central. Assim como a segunda lei da termodinâmica não é uma lei física real, o argumento da lacuna não se sustenta, logo, deve ser abandonado pelos céticos.

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