Amy Winehouse – adeus à diva

mais uma vez, uma história de artista talentosa que segue uma meteórica e efêmera carreira de sucesso e auto-destruição. não a primeira, certamente nem a última – por que a arte e a desgraça andam juntas com certa frequência? é certo que o mundo é cheio de artistas que cumprem suas vidas de forma bem mais ordinária, mas são aqueles cujas carreiras são rápidas, brilhantes e fugazes, como os cometas, que mais se fixam no imaginário humano. no século XX houveram outros exemplos, e podemos argumentar que a sociedade moderna cria estes ícones e os destrói com as cruéis e inconscientes engrenagens de um mundo capitalista; ou a solidão moderna de pessoas que são tão mais isoladas quanto mais conectadas. mas tudo isso é somente aspecto, aparência, algo mais profundo existe por trás. o romance entre arte e desgraça parece quase arquetípico, de tão antigo, e podemos encontrar velhos exemplos na mitologia grega, de heróis-artistas que caíram em desgraça perante os deuses por causa de sua hybris (orgulho, excesso, perda de controle, ousadia insolente). hefestos, o deus artesão, ourives, escultor, genial, foi desprezado e sofreu pela sua aparência feia desde o nascimento, e trabalhou o mais de seu tempo oculto na forja de profundo vulcão, foi embriagado e enganado quando ousou vingar-se contra os deuses; orfeu, maior de todos os poetas e músicos, capaz de enfeitiçar até as criaturas do Hades, perdeu sua Eurídice para sempre após ter ido ao submundo por ela e, depois, foi dilacerado pelas Mênades, as quais não suportaram terem sido encantadas pela sua música; ícaro, filho do arquiteto e inventor dédalo ascendeu com entusiasmo para sua própria destruição, desobedecendo aos conselhos paternos e ousando voar alto demais (uma analogia aparentemente adequada para winehouse, mas apenas aparentemente). finalmente, o primeiro de todos – patriarca de toda a arte – prometeu, o titã que roubou o fogo dos deuses e o entregou aos homens, e ensinou-lhes todos os ofícios e também as artes, mas pagou com um tormento atroz. no entanto, prometeu não é um mortal, mas um imortal, e ao final conseguiu libertar-se com a juda de um filho de homens – hercules. as palavras que o poeta ésquilo põe na boca de prometeu são uma espécie de resumo da arte: “Libertei os homens da obsessão da morte […]. Instalei neles cegas esperanças […]. e dei-lhes ainda o fogo.” a morte é vencida pela arte, pois esta torna os homens imortais, como os deuses. ars longa, vita brevis, mas os outros versos deste poema não são tão lembrados assim:

occasio praeceps,
experimentum periculosum,
iudicium difficile

viver, pois, é perigoso, e  a oportunidade se nos escapa com facilidade. amy winehouse, como outras antecessoras, pagou seu tributo à arte e tornou-se um arquétipo da arte mitológica, sucumbindo à hybris, assim como orfeu, de ter ousado descer às profundezas de si mesma e fazer as mênades chorarem.

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