Rei de Todas as Moléstias

Estou passando pouco mais da metade da leitura do livro “The Emperor of All Maladies” do médico americano de origem indiana Sidharta Mukherjee. Oncologista, ele trabalha no Columbia University Medical Center, em NY, onde atende pacientes com câncer e leciona. Também um cientista, ele publicou extensamente em sua área, em revistas de prestígio. Agora, após a publicação de seu livro, em 2010 e de ganhar o Pulitzer em 2011, ele foi repentinamente catapultado ao estrelato. Seu livro está disponível apenas em inglês mas, graças aos modernos sortilégios da globalização, pode ser obtido em qualquer aldeia do Xingu, desde que com uma conexão de internet… Tem-se escrito muitos relatos de leitores mesmerizados por sua escrita ágil, elétrica e apaixonada, porém ao mesmo tempo detalhista, minuciosa e crítica. O NY Times declara que Mukherjee tem “DNA literário” e faz comparações cinematográficas, como identificar seu laboratório com um cenário de Stanley Kubrick ou ponderar que, à primeira vista, Mukherjee parece menos com um cientista médico do que com um produtor de Bolywood (a frenética “Hollywood” indiana). Exageros à parte, é bem verdade que o escritor domina seu “enredo” de uma forma novelesca e, porque não, cinemática. Apesar de ter se proposto a escrever uma história sobre o tratamento do câncer ao longo das eras, Mukherjee diz ter achado o verdadeiro caminho dentro de sua busca literária quando deu-se conta de que escrevia uma “biografia do câncer”. Mais do que isso, porém, Mukherjee consegue transformar o que ocorreu através de áridas discussões científicas e longos intervalos de tempo na mente de cientistas cismarentos e desconfiados uns com os outros, em um vibrante enredo que prende o leitor do início ao fim. O que sucedeu-se através dos dramas e idiossincrasias de milhares de pacientes anônimos e centenas de médicos enclausurados em seus inacessíveis postos, torna-se numa aventura das mais emocionantes. Não apenas uma aventura de indivíduos, algumas vezes mesquinhos, muitas vezes heróicos, porém sempre repletos de uma força de vontade por vezes sobre-humana, ainda que semeados das mesmas fraquezas ordinárias de todos nós. Não, a aventura desenhada por Mukherjee no seu “The Emperor of All Maladies” é de toda a humanidade, do gênero humano em sua totalidade e profundidade. Para além da “Guerra contra o Câncer” existe a guerra do ser humano contra ele mesmo, contra sua natureza falha e rebelde. Através das vitórias e das derrotas que ele descreve ao longo do tortuoso panorama que ele revela, o autor nos leva a refletir sobre nós mesmos, nossas (in)certezas, e nos ajuda a descobrir aquilo que realmente nos une a todos, heróis, algozes, anônimos: nossas humanas fraquezas. Epitomizando tal verdade, numa das passagens mais tocantes, o título da parte 3 do livro diz: “Will you turn me out if I can‘t get better?” descrevendo parte de um diálogo com um paciente. Um dos capítulos, intitulado “The smiling oncologist” mostra como, em aparente resposta a esta demanda dos frágeis pacientes agredidos pela quimioterapia, os oncologistas adquiriram uma atitude de excessiva confiança e relutância em admitir o sofrimento alheio, uma óbvia barreira contra a insuportável presença constante da dor humana. Mukherjee nos canta uma aventura, ao estilo dos grandes escritores da antiguidade, como se escrevesse uma Ilíada do Câncer, onde heróis tão audaciosos quanto um Agamenon ou um Aquiles (Halsted ou Farber, por exemplo) nos são descritos em batalhas épicas. Ao mesmo tempo, a linguagem tecnicista que parece querer reinventar a realidade e que filtra-se através dos personagens, como a dar voz viva à sua  arrogância, e aos erros e vícios humanos e mundanos que permeiam a história nos remetem a um James Joyce. Mukherjee fala várias vezes que, como nas tragédias gregas, a trama da Guerra contra o Câncer está repleta de hubris, da desgraça dos heróis quando ousam, temerários, poder mais que o terrível poder contra o qual lutam. Também ele nos fala de um admirável mundo novo, onde o câncer não é mais uma doença incompreensível ou incurável, um mundo onde vivemos hoje, ignorando a longa história e as paixões por vezes tão intensas (como a devoção de Mary Lasker, a primeira e maior ativista contra o câncer, que reinventou uma época) que nos trouxeram aqui. É dessa história que Mukherjee nos fala, com uma verve literária invejável. Até onde li, ainda longe do final da jornada, entendi que, na verdade, não é o Câncer o Rei de Todas as Moléstias. É o ser humano que assim busca se tornar, derrotando para sempre todos os seus algozes, numa busca incessante que termina por levá-lo a uma aparente derrota, mas que insufla humildade e respeito por si mesmo e pela vida. Mal posso esperar para ler o resto desta narrativa.

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