Onde está o valor do mundo?

Na esteira dos últimos acontecimentos políticos, fala-se agora em linguagem apocalíptica (ou pós): “o fim do Brasil”? Quer-se dizer que a economia irá entrar numa crise severa. A falta de informação generalizada do público comum (aqueles que se assustam com a grita do ‘Chicken Little’ e compartilham toda sorte de informações sem origem nem destino certo) explica porque a conta recai comumente no “governo”, esta entidade metapsíquica que incorpora-se na figura da atual e recém-reeleita presidenta. As pessoas ignoram fatos básicos sobre a economia de mercado, seus vícios e seus desvios. A cantilena já há muito ultrapassada de “auto-regulação” do mercado é repetida ad nauseam, sem que nem mesmo seus proponentes saibam enxergar 1 milímetro além de seu verniz fosco e falhado. Pois bem, para quem quiser um esclarecimento a mais sobre alguns dos mecanismos básicos da economia de mercado, posto o link para um texto do pensador Ladislau Dowbor, cujas idéias são permeadas pelo enfoque sistêmico e pela busca da sustentabilidade. Como ele mostra com facilidade, o atual capitalismo de mercado pode ser o que quiser, menos sustentável.

Basta falar sobre o fato de que cerca de uma centena e meia de empresas, na maioria financeiras, controlam a maior parte do dinheiro em “circulação” do planeta. A palavra “circulação” precisa vir entre aspas pois o texto nos revela, ainda, a partir de uma reportagem da The Economist, que 1/3 do capital do planeta está “represado” em paraísos fiscais, cerca de 20 trilhões de dólares. Este montante não está participando de um “mercado livre” e, logo, não pode ser subscrito à nenhuma forma de “auto-regulação”, mas tão-somente à especulação pura e simples. Podemos concluir com facilidade que os interesses de um grupo bem restrito controlam a maior parte dos bens (do valor) do mundo. Então, onde está o valor do mundo? Segundo nos esclarece Dowbor, ele está “sequestrado”, alienado da humanidade que, efetivamente, produz esta riqueza. Ou seja, para todos os fins, de uma forma global, o sistema capitalista “abduz” de um terço a metade de tudo que produzimos, que fica sobre o controle de um pequeno grupo de indivíduos que, efetivamente, se apropria disso. Tal fato é vários graus de magnitude mais importante e profundo que o antigo conceito de “mais-valia” de Marx. Trata-se de uma verdadeira “super-valia”. Uma concentração de valor efetivo desta magnitude num sistema como o atual, defende Dowbor, dificilmente é compatível com a sustentabilidade que será necessária para assegurar o futuro da humanidade.

O remédio sugerido por Dowbor não é nenhuma revolução, ele não tem idéias reformadoras nem revolucionárias. Ele prescreve que o próprio corpo produtivo da economia, o empresariado, além dos governos, em sua função regulatória, “resgatem” o montante de recursos aprisionados à margem do corpus da economia de mercado. O método que ele advoga é um intervencionismo seletivo, “racionalizando” as cargas de juros e tributária, de forma a romper o ciclo vicioso especulativo e anti-produtivo. As idéias de Dowbor alimentam-se dos estudos investigativos do economista James S. Henry, do jornalista Joshua Schneyaer e da especialista em redes Stefania Vitali para nos dar um panorama da profunda “distorção sistêmica”, como ele chama, da economia global. Num mundo globalizado em crise, concluo, somente nos resta uma alternativa como espécie: evoluir e adaptar-mo-nos (isso vai necessariamente significar alterar profundamente a economia de mercado capitalista) ou fenecer.

Texto aqui. Ou acessando dowbor.org

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