O que é um direitista no Brasil

Hoje pela manhã, ao chegar ao meu local de trabalho, entretive uma rápida conversa com um colega. Como sei que ele integra aquela facção de direitistas que brada, sempre brinco com ele, cutucando seu nazista interior. Dessa vez, ele começou com mais uma resposta chavão: “como você é comunista e é contra o congelamento de investimentos públicos por 20 anos? Em Cuba, os comunistas vivem com um sabonete e uma toalha por mês. Ser comunista é ser pobre!” É lógico que um tal argumento raso é fácil de rebater com não mais que poucas palavras. Bastou que eu declarasse que ser comunista é ser pobre por igual, todos os indivíduos da sociedade, sem distinção entre classes. Essa ainda é uma visão muito simplória e restritiva do que seria o comunismo, mas nem adianta começar um diálogo mais denso.

Em tempo, um texto enciclopédico traz a seguinte definição:

  O “Comunismo puro“, no sentido marxista, refere-se a uma sociedade sem classes (sociedade regulada), sem Estado (ácrata ou apátrida) e livre de quaisquer tipos de opressão, onde as decisões sobre o que produzir e quais as políticas devem prosseguir são tomadas democraticamente e permitindo dessa maneira que cada membro da sociedade organizada possa participar do processo, tanto na esfera política e econômica da vida pública e/ou privada. Marx, no entanto, nunca forneceu uma descrição detalhada de como o comunismo poderia funcionar como um sistema econômico.

“Socialism.” Columbia Electronic Encyclopedia.

Columbia University Press. 03 Feb. 2008.

Fica óbvio que a definição de comunismo não se esgota num lema econômico simples. Na verdade, inicialmente, a aplicação do comunismo no domínio econômico era vaga. Ele foi gestado como uma verdadeira utopia, no sentido que Thomas Morus deu ao termo. Dessa forma, pode-se dizer que o comunismo, desde o início, trata-se de uma “não-condição”, um ideal inexistente ao qual se pode aspirar, mas nunca alcançar. A sociedade utópica de Thomas Morus, espelhada na fictícia ilha paradisíaca descrita pelo viajante Rafael  Hitlodeu, é verdadeiramente comunista na acepção marxista original. Logo, ela se inscreve mais propriamente no imaginário do que no domínio das possibilidades do real.

Foi com Lênin que o comunismo adquiriu um projeto no domínio da economia, logo, na realidade. Ainda assim, o termo comunismo ainda se inscrevia parcialmente num ideal utópico. para Lênin (assim como para Marx), o comunismo era o estágio final da sociedade após a revolução proletária. No entanto, os primeiros teóricos do socialismo entendiam que apenas sociedades completamente industrializadas poderiam albergar uma revolução do proletariado. Apesar de diversos movimentos no século XIX, foi num país rural e semi-feudal, sem quase nenhuma industrialização, que a Revolução Comunista aconteceu inicialmente. A Revolução Russa levantou o povo, composto basicamente por trabalhadores rurais, contra uma “burguesia” que, na verdade, era ainda um eco da nobreza medieval. Nesse sentido, foi uma adaptação, não uma aplicação, da revolução do proletariado segundo teorizada por Marx e Engels.

Voltando ao diálogo com meu colega. Após seu argumento ser desativado facilmente, ele passou a objetar que minha posição não era isenta. Alegando que eu teria uma inteligência privilegiada, ele argumentou que eu mereceria, assim como qualquer outra pessoa em minha condição, um retorno maior da sociedade, ou seja, maior remuneração pela mesma função, mais status, etc. Ele declarou que eu seria “um exemplo vivo de que o comunismo, a igualdade, está errada.” Esse é um duplo argumento falacioso. Usa o elogio ao oponente como técnica de sedução para conseguir a aceitação de um argumento sem base apropriada (apelo à vaidade). Além disso, usa um conceito deturpado do que seria a “igualdade” no comunismo, dando-lhe um viés negativo, de injustiça social (distorção de fatos). O erro é maior ainda pois ele admitiu a priori que eu tenho direito adquirido a um tratamento diferenciado pela sociedade, o que realmente não ocorre. Desde meu relacionamento com o ambiente de trabalho e seus componentes (como o colega em questão), até o modo como a sociedade de consumo em geral se relaciona comigo, não existe nenhuma diferença importante com outras pessoas. Na verdade, pessoas com a mesma posição que a minha no mercado de trabalho, com exatamente o mesmo emprego e função, chegam a ganhar bem mais do que eu, através de um esquema distorcido de “meritocracia” comum neste país, onde o que importa são seus relacionamentos. O colega acrescentou que, se estes benefícios não me eram concedidos, seria apenas por minha recusa em buscá-los (!), o que constitui uma falácia de teoria irrefutável (sem possibilidade de prova).

A ingenuidade argumentativa fica bem exposta no diálogo de uma pessoa como ele, representante de uma direita que se arma de idéias fáceis, falaciosas, propagadas através de veículos de comunicação de massa entre os próprios direitistas. Através de um recurso classicamente conhecido como a estratégia de envenenar o poço (fazendo parecer que seu oponente sempre está errado e seus discurso, sempre correto), o diálogo verdadeiro é completamente impedido. Como o historiador Leandro Karnal costuma repetir, “quando começa a adjetivação, o diálogo termina.” Essa característica de impedir a discussão é própria de uma extrema direita simplória, mal educada (num duplo sentido, com educação formal inadequada ou imprópria, beirando o analfabetismo funcional, e sem obedecer um mínimo aceitável de etiqueta) e preconceituosa. Minha linha de diálogo, em seguida, tentou expor a situação de debilidade argumentativa do meu interlocutor. Declarei, desapaixonadamente, que não tolerava o diálogo com elementos da direita que demonstravam falta conspícua de inteligência e que, de bom grado, aceitaria participar de um longo interlóquio caso a situação fosse de um alto nível de discussão. No entanto, acrescentei, isso não ocorre com a extrema direita típica do Brasil, em contraste flagrante com a postura de intelectuais de esquerda (ou que assim se declaram), a qual costuma ser mais racional e menos visceral.

Meu colega elencou, então, um desfile de argumentos muito próprios de um non sequitur, quando as incoerências impedem qualquer tipo de conclusão lógica. Ele declarou que “a direita não tem um discurso intelectual por culpa da esquerda, que até a pouco tempo a perseguia, especialmente nos meios acadêmicos.” Este argumento desconstrói a si mesmo, dispensando comentários. Além disso, ele argumentou que a esquerda costuma “atacar os direitistas com termos pejorativos, como torturador, partidário da tortura”, entre outros. Frisei esta declaração de sua parte, pois o que se seguiu de seu monólogo (já agora não dava espaço para discussão) me deixou estarrecido. Começando por afirmar que “você sabe, esse negócio de tortura… na guerra…”, ao que retruquei de imediato que a tortura havia sido uma realidade em nosso país. Os seus argumentos seguintes, desculpando-me pela transcrição da linguagem chula: “ora, apertar um pouco os ovos lá é tortura? Estupro não é tortura! E os assassinatos da esquerda?” Para alguém que acabara de se dizer injustamente alcunhado de defensor da tortura, ele não parecia estar ajudando muito sua posição com esse discurso. Alinhavrou-se, em seguida, os chavões batidos sobre “direitos humanos defendem bandidos”, “somos acusados de homofobia por gostar de mulher”, “basta ser preto para ser empoderado”. E outras tantas do mesmo quilate.

Essa é a verdadeira face da direita brasileira típica e, não, ninguém está enganado ao notar importantes semelhanças com o facismo, nos moldes do nazismo alemão. A cadela do fascismo está sempre no cio, nos alertava Bertold Brecht. A cientista política e filósofa Hannah Arendt passou sua vida denunciando tanto o totalitarismo de direita, quanto o de esquerda, e tentou analisar as motivações que levaram uma sociedade inteira (educada e sofisticada) a abraçar o fascismo. Tristemente, se fosse viva, ela provavelmente detectaria de imediato os elementos sociais que permitiram a emergência do fascismo alemão na sociedade brasileira de hoje.

 

 

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